Como Morar em Favelas Impacta os Deslocamentos Urbanos

Por Redação
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Um estudo recente revela que os moradores de favelas na cidade de São Paulo apresentam menor variabilidade nos padrões de deslocamento cotidiano em comparação a moradores de áreas formais com renda semelhante. Essa pesquisa, publicada na revista Transportation, foi realizada por Matheus Henrique Barboza, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), com orientação de Mariana Giannotti e coautoria de Anna Grigolon e Karst Geurs. O trabalho integra a tese de doutorado de Barboza, desenvolvida em regime de dupla titulação entre a USP e a Universidade de Twente, na Holanda.

Importância dos Dados da Pesquisa

Os dados utilizados na pesquisa são de 2016 e, embora não permitam extrapolações diretas para o presente, os pesquisadores acreditam que os resultados ainda são relevantes para análises conceituais envolvendo mobilidade, renda, informalidade e condições residenciais. A análise baseou-se em 77 dias de registros de telefonia móvel, totalizando cerca de 30 milhões de eventos associados a aproximadamente 6 mil usuários que residem em áreas de favelas.

Variabilidade Intrapessoal da Mobilidade

Os pesquisadores focaram na variabilidade intrapessoal da mobilidade—ou seja, as mudanças diárias nos trajetos de uma mesma pessoa. Enquanto muitos estudos de transporte analisam apenas um dia, este estudo explorou o comportamento das pessoas ao longo de várias semanas. Os resultados indicam que, mesmo após levar em conta fatores como renda média, uso do solo e acessibilidade ao transporte público, o fato de um indivíduo residir em uma favela afeta seus padrões de deslocamento.

Desafios e Limitações para Moradores de Favelas

A análise sugere que os moradores de favelas enfrentam desafios adicionais que limitam suas opções de mobilidade. Entre esses desafios estão as condições de infraestrutura, como vielas estreitas, longas distâncias até pontos de ônibus e a falta de calçadas adequadas. Embora trabalhadores informais tenham maior variabilidade em seus deslocamentos devido à necessidade de atuar em múltiplos locais, residir em favelas pode impor limitações adicionais.

Implicações para Políticas Públicas

Os achados da pesquisa têm implicações diretas para o planejamento urbano e formulação de políticas públicas. O estudo oferece métodos para o uso de dados de telefonia na elaboração de Planos de Mobilidade, essenciais para municípios com mais de 20 mil habitantes segundo a Política Nacional de Mobilidade Urbana. Além disso, as análises podem informar políticas específicas, como adequação da oferta de transporte em áreas periféricas e investimentos em infraestrutura onde a mobilidade cotidiana é mais restrita.

Proteção de Dados e Ética na Pesquisa

Os dados utilizados na pesquisa são anônimos e não permitem a identificação individual. O acesso foi formalmente obtido por meio de acordos com operadoras de telefonia, seguindo rigorosos protocolos éticos e respeitando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que permite esse tipo de pesquisa quando realizada por universidades e com dados anonimizados.

O artigo “Mobility variability of favela residents of São Paulo based on mobile phone data” pode ser lido em: springer.com/article/10.1007/s11116-025-10695-6.

Informações da Agência FAPESP

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