Participação Política e Cultural dos Povos Indígenas: Um Diálogo entre Mundos

Por Redação
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Diálogo entre Saberes Tradicionais e Pensamento Ocidental

Quando o paradigma hegemônico ocidental encontra os saberes tradicionais dos povos indígenas, surgem questionamentos sobre a possibilidade de um diálogo horizontal que beneficie ambas as partes. O workshop "Participação política dos povos indígenas e das comunidades da Amazônia", realizado no dia 3 de novembro no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), explorou essas questões. O evento faz parte do projeto Democlites – Democracia, Clima e Transição Ecológica e Social, resultado de uma colaboração entre a Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne e a USP, com apoio da FAPESP.

O Diálogo entre Mundos

O tema central das conferências foi o "diálogo entre mundos". O doutorando Alex Alexis destacou a importância de reconhecer a pluralidade dos mundos ao abordar a participação dos povos indígenas em processos políticos e jurídicos. Ele apresentou dois exemplos contrastantes: o caso dos indígenas Ktunaxa no Canadá, que enfrentaram a negativa da Suprema Corte em defesa de uma crença espiritual, e o caso dos Maori na Nova Zelândia, que conseguiram reconhecimento de seus dados como "taonga" (tesouros).

Pesquisa Antropológica e Sabéres Indígenas

A antropóloga Nastassja Martin discutiu a necessidade de um pensamento cosmopolítico que valorize os saberes indígenas. Recentemente, ela participou do encontro ÁGUAMÃE, onde indígenas compartilharam suas perspectivas sobre a água como uma entidade, não apenas um recurso. Martin lamentou que a abordagem tradicional ocidental muitas vezes não reconhece a sinergia entre humanos e não humanos, enfatizando a importância da escuta nas interações culturais.

Usos Criativos do Direito

O professor Vitor Ido abordou a proteção do conhecimento tradicional indígena através do uso estratégico do direito. Ele argumentou que há mais criatividade nos usos locais do direito na Amazônia do que nas esferas internacionais. Ido citou três casos de sucesso no uso do direito privado por comunidades indígenas, evidenciando que esses mecanismos podem efetivamente garantir direitos.

Diplomacia Cultural Indígena

A professora Carolina Amaral explorou como a arte indígena se internacionalizou, enfatizando a "diplomacia cultural indígena". A participação de artistas em bienais de prestígio, como a Bienal de Veneza, não apenas promove a visibilidade de questões indígenas, como também articula reivindicações sociais e ambientais. Amaral ilustrou como essa diplomacia tem relevância nas pautas contemporâneas, especialmente em relação à crise climática.

Conclusão: Encontros Possíveis

As conferências convergiram na ideia de que o diálogo entre mundos é viável, mas requer que o campo hegemônico amplie sua capacidade de escuta. Como destacou Alexis, é crucial criar espaços onde cada mundo possa ser ouvido, permitindo que a política, ciência e direito coexistam com múltiplas realidades. A questão não é apenas de diálogo, mas de um reconhecimento profundo das diversas formas de existir e de pensar.

Para mais informações sobre o projeto Democlites e o programa de conferências, acesse fapesp.br/17873.

Informações da Agência FAPESP

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