Um estudo recente liderado por pesquisadores do Instituto Butantan, apoiado pela FAPESP, realizou o mais completo sequenciamento genético da jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), com foco em seus genes de veneno. Esse trabalho é vital para a compreensão da evolução das jararacas e suas toxinas, especialmente considerando que muitos genes da jararaca-ilhoa são compartilhados com outras 48 espécies do gênero.
O estudo foi publicado na revista Genome Biology and Evolution. A jararaca-ilhoa foi identificada em 1921 como uma espécie distinta da jararaca (Bothrops jararaca), cujo genoma já havia sido sequenciado em 2021. Isolada na Ilha da Queimada Grande, no litoral paulista, essa população se diferenciou significativamente de suas congêneres do continente, tornando-se uma nova espécie há cerca de 100 mil anos.
Características da Jararaca-ilhoa
A jararaca-ilhoa apresenta diferenças morfológicas, como a pele amarela, hábitos semiarborícolas e uma dieta baseada em aves quando adulta. Em contraste, as jararacas do continente têm cores mais escuras e caçam pequenos mamíferos, como ratos.
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Pesquisas anteriores sugerem que o veneno da jararaca-ilhoa é mais potente em aves do que em mamíferos. Embora não tenham sido encontradas diferenças significativas nos genes das toxinas, é possível que pequenas variações possam aumentar a letalidade do veneno para aves, segundo Pedro Nachtigall, primeiro autor do estudo.
Composição do Veneno
O genoma da jararaca-ilhoa revelou um veneno rico em enzimas e proteínas que provocam hemorragias e distúrbios de coagulação, além de atuarem em outras funções comuns aos venenos das jararacas do continente, como a hipotensão e lesões teciduais.
Os pesquisadores identificaram que as variações no genoma não ocorrem aleatoriamente, mas são influenciadas pela seleção natural. Embora a população seja isolada, as análises revelaram pressão seletiva, possivelmente devido à alimentação e à restrição geográfica da espécie.
Importância para a Conservação
A população da jararaca-ilhoa está restrita a apenas 43 hectares da Ilha da Queimada Grande, uma área crítica para a conservação dessa espécie, considerada criticamente ameaçada de extinção. O estudo não apenas mapeou um genoma completo de um indivíduo macho, mas também incluiu genomas menos detalhados de outros oito indivíduos, facilitando a avaliação da variabilidade genética.
As descobertas servirão como uma base para monitorar a saúde genética de população em cativeiro em comparação com a selvagem, além de apoiar políticas de conservação.
História e Dados Demográficos
A pesquisa permitiu reconstruir a história demográfica da espécie, sugerindo que um segmento de uma população continental se isolou há cerca de 100 mil anos. Modelos matemáticos estimaram períodos de declínio populacional, revelando assim dois eventos de insularização que reduziram a população significativamente ao longo do tempo.
O estudo contribui para o entendimento da evolução dos genes de veneno, além de potencialmente abrir portas para aplicações biotecnológicas, como o desenvolvimento de medicamentos anticoagulantes.
Conclusão
Este amplo sequenciamento genético da jararaca-ilhoa não apenas expande o conhecimento científico sobre essa espécie única, mas também estabelece uma base sólida para futuras pesquisas em genética, evolução e biotecnologia, contribuindo para a conservação da biodiversidade.
Para mais informações, leia o artigo completo: The golden lancehead genome reveals distinct selective processes acting on venom genes of an island endemic snake.
Informações da Agência FAPESP

