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Inocente morto por guarda durante assalto tinha dois trabalhos e dormia quatro horas por noite: ‘Ele tinha um sonho’

Rodinei Alves trabalhava como operador de empilhadeira durante a semana, e aos finais de semana, vendia água e sorvete em estádios e eventos para montar uma loja de churros. Ele e o amigo Bruno Oliveira foram assassinados por um guarda municipal durante um roubo.

Rodinei Alves, de 33 anos, era operador de empilhadeira e ambulante nas horas vagas. — Foto: Luciana Oliveira Alves/Arquivo Pessoal

Rodinei Alves, de 33 anos, um dos inocentes mortos por guardas municiais durante um assalto em Itaquaquecetuba, trabalhava como operador de empilhadeira durante a semana e, aos finais de semana, vendia água e sorvete em estádios e eventos.

O sonho era ter um negócio próprio e estava perto de ser realizado. Foi ao tentar abastecer, voltando das vendas no Santuário de Aparecida, que ele foi assassinado no último sábado (12).

“Eu dizia que ele tinha que diminuir o ritmo, descansar mais, mas ele dizia que estava cada vez mais perto do sonho dele. Ele tinha um sonho: o ‘Churros Gourmet'”.

A lembrança de Luciana Oliveira Alves, de 27 anos, é de um dos diálogos que tinha sempre com o marido.

O caso aconteceu em um posto de combustíveis na Rodovia Ayrton Senna, durante um assalto a dois guardas municipais de Itapecerica da Serra.

A princípio, com base no depoimento do guarda municipal, Rodinei, o amigo também assassinado Bruno Oliveira, de 32 anos, e Kauê Oliveira Francisco, de 21 anos, foram apontados como suspeitos do crime.

Kauê ficou preso por quatro dias, mas a divulgação de imagens da câmera de monitoramento do posto provocou uma reviravolta no caso e a inocência deles foi comprovada.

Os guardas haviam dito que tinham sido abordados por homens que desceram de um veículo. Mas os vídeos mostram que os assaltantes chegaram a pé.

A viúva de Rodinei contou à reportagem do G1 que chorou bastante nos últimos dias, mas que agora tem pedido ao marido um pouco da força que ele tinha para o trabalho, para que ela lute por justiça. “O Rodinei ia dormir meia-noite, 1h, para levantar às 4h todos os dias. Quando ele não ia para a empresa, ia vender sorvete e água. É dessa persistência dele que eu preciso para ver esses guardas presos”, conta.

Nos 12 anos em que conviveu com Rodinei, sete deles casados, Luciana lembra da vontade dele de abrir um espaço para vender “churros gourmet”, como ele costumava dizer.

O casal já havia alugado o espaço, mobiliado com os balcões e até visitado uma fábrica de churros para aprender o funcionamento das máquinas. A data da inauguração estava marcada para 1º de novembro.

“Toda a luta dele foi interrompida. A minha filha tem 6 anos. Ela tinha um pai, mas agora eu tive de dizer para ela que toda aquela alegria que ele tinha foi para o céu, porque ele tinha ido participar de uma festa lá. Ela fez um desenho da festa do céu e escreveu ‘eu te amo’. Ela está muito triste”, conta Luciana.


‘Nada de errado’

Luciana tenta justificar que o marido nunca se envolveu com nada errado. No dia do crime, ela diz que ele ligou avisando que era para ela colocar água para gelar, porque à noite ele iria vender no estádio.

Chegou a madrugada de domingo e o marido não havia aparecido para buscar a mercadoria e também não respondia às mensagens.

Ela ligou para outro ambulante que costumava encontrar com ele no estádio, que informou que ele não havia aparecido.

“Eu puxei o GPS do celular e mostrou o posto de gasolina. Pensei que poderia ter sido um acidente, porque se o carro estivesse quebrado ele ia me ligar para chamar o seguro. Fiquei ligando na polícia, mas só de manhã eles atenderam e disseram que ele e um homem tinham morrido durante um assalto e o outro tinha sido preso. Eu sabia que ele não tinha feito nada, nada de errado, porque ele jamais faria isso”, conta.
Luciana e Rodinei estavam juntos há 12 anos e iam realizar o sonho de ter uma loja de churros.

Luciana foi para hospital Santa Marcelina de Itaquaquecetuba na companhia do cunhado. No local, eles receberam detalhes do que aconteceu. O irmão de Rodinei reconheceu o corpo.

“Ia demorar muito mais tempo para provar a inocência dele se não fossem as imagens do posto, mas eu não ia descansar, porque tinha vários vídeos e fotos dele trabalhando em Aparecida, e também porque não é justo uma pessoa como ele morrer daquela forma”.

Investigação
O Setor de Homicídios de Mogi das Cruzes detalhou em uma coletiva nesta quinta-feira (17) as investigações.

A polícia vai aguardar laudos para avaliar a ação de cada um dos dois guardas municipais que reagiram ao assalto.

As vítimas fatais da troca de tiros foram Roberta Maria de Franca, namorada de um dos guardas, Rodinei Alves dos Reis e Bruno Nascimento de Souza, que tinham ido vender sorvete e água em Aparecida e pararam para abastecer.

Um terceiro rapaz também foi baleado e sobreviveu. Kauê Oliveira Francisco foi agredido e preso logo depois do assalto. Considerado inocente, ele foi solto nesta quarta-feira (16).

As armas pertenciam à Prefeitura de Itapecerica da Serra, onde os guardas trabalham. A Prefeitura informou que “lamenta o triste episódio” e que os agentes foram afastados do trabalho. Segundo a administração municipal, foi instaurado um procedimento administrativo para apurar os fatos.

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