Biden ignora fiascos e cita China para defender ‘sucesso extraordinário’ no Afeganistão

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Foto: AP

O presidente dos EUA, Joe Biden, fez um pronunciamento nesta terça (31) para marcar o fim da saída das tropas americanas do Afeganistão, o que foi definido por ele como um “sucesso extraordinário e histórico”.

Ainda que mais de 120 mil pessoas -entre americanos, aliados e afegãos que colaboraram com as forças ocidentais- tenham sido resgatadas em poucas semanas, a retirada foi marcada por cenas de caos.

Entre elas estão as de afegãos caindo de um cargueiro C-17 após se agarrarem à fuselagem na decolagem e a de moradores entregando bebês a soldados por cima do muro do aeroporto em meio às tentativas de fuga. O ápice foi o ataque terrorista que, na quinta (26), matou mais de 180 pessoas perto do aeroporto.

Biden chamou a retirada de “missão de misericórdia” e destacou que 90% dos americanos que queriam sair, além de dezenas de milhares de afegãos que ajudaram os EUA, foram salvos. Ainda restam entre 100 e 200 cidadãos do país a serem resgatados, estima o governo americano, e a saída deles será negociada de modo diplomático, segundo Biden, bem como a dos afegãos que ainda não conseguiram escapar.

O Talibã, grupo que tomou o controle do Afeganistão, prometeu que estrangeiros e afegãos que querem deixar o país poderão fazê-lo quando o aeroporto de Cabul voltar a operar, mas ainda não está claro se a palavra será cumprida nem o que o governo americano fará em caso de desrespeito ao pacto -que receberá cobranças da comunidade internacional, segundo o presidente dos EUA.

Com tom bem mais confiante e assertivo do que na semana passada, quando pareceu desanimado e um tanto confuso, Biden repetiu frases que tem dito nas últimas semanas: não havia outra saída a não ser cumprir o acordo de retirada das tropas do Afeganistão e a decisão ajudará os EUA a se concentrar em desafios futuros, como a competição com a China.

“Esta decisão não é apenas sobre o Afeganistão, mas encerrar uma era de grandes operações militares para reconstruir outros países”, disse o democrata. “O mundo está mudando. Estamos engajados em uma séria competição com a China. Estamos lidando com desafios com a Rússia, confrontados com ataques virtuais e proliferação nuclear. A principal missão de um presidente não é proteger a América das ameaças de 2001, mas das ameaças de 2021 e de amanhã.”

“Quando tomei posse, em janeiro, o Talibã controlava cerca de 50% do território afegão. Eu tinha duas escolhas: cumprir o combinado pela administração anterior [de Donald Trump] ou enviar mais milhares de soldados americanos e ampliar a guerra. E qual seria nosso interesse nacional nisso? Era hora de terminar essa guerra, e eu assumo a responsabilidade pela decisão. Eu não iria estender essa guerra eterna.”

O presidente afirmou ainda que o terrorismo se espalhou por vários pontos do mundo, como uma metástase, e que a melhor forma de combatê-lo é com ações pontuais, não mais com ocupações de longo prazo para tentar reconstruir países ou estabelecer governos, como se tentou no Afeganistão.

“Esperávamos que as forças afegãs, que treinamos e equipamos, aguentassem mais tempo. Mas isso não aconteceu”, afirmou, ecoando fala do seu primeiro pronunciamento sobre a crise, em que lavou as mãos.

O que contrastou com declarações anteriores foi ter chamado a operação de sucesso. Antes, Biden havia dito que a missão não poderia ser feita “sem caos” e que ele não poderia garantir o resultado final dela.

O pronunciamento desta terça se deu algumas horas após o último avião americano deixar Cabul, na noite de segunda (30), marcando o fim da ocupação americana no Afeganistão, conflito mais longo da história dos EUA. Ao longo de duas décadas, segundo estudo da Universidade Brown (EUA), morreram cerca de 160 mil pessoas (das quais 2.298 soldados americanos, 3.814 mercenários, 1.145 aliados; o restante, afegãos). O custo total é estimado em US$ 2,26 trilhões.

O democrata enfrenta críticas pela forma caótica como a retirada foi feita e pelo fato de o Talibã conseguir voltar ao poder. O grupo havia sido deposto pouco depois da invasão, em 2001, mas não foi eliminado por completo e retomou o controle do país -algo que Biden havia dito ter chances mínimas de acontecer.

No ano passado, o então presidente Donald Trump assinou um acordo de paz com os talibãs, acreditando que o grupo poderia integrar um futuro governo de coalizão. Biden foi eleito em novembro e, após assumir, anunciou em abril que cumpriria o trato -mas que sairia até 11 de setembro, e não na data combinada.

O Talibã usou a mudança de desculpa para rasgar sua parte do acordo. Iniciou uma campanha pelo interior afegão e cooptou líderes tribais. O resultado foi uma trajetória militar avassaladora contra grandes centros urbanos, que em duas semanas viu o país todo capitular e Cabul ser ocupada sem resistência, com a fuga do presidente Ashraf Ghani para Abu Dhabi.

A ofensiva se deu também porque Biden decidiu antecipar a saída das tropas, para uma data ainda mais próxima, 31 de agosto. Assim, seus cerca de 3.500 soldados, mais outros 7.000 aliados, foram embora rapidamente: na semana anterior à queda da capital, 95% das forças já haviam saído.

Apesar de a retirada ter sido concluída, há várias questões em aberto. Uma delas é como se relacionar com o Talibã a partir de agora. O grupo espera reconhecimento internacional de seu governo e tem prometido agir de forma menos fundamentalista. No entanto, não está claro como as coisas irão funcionar na prática e quais liberdades serão mantidas, especialmente para as afegãs.

Quando o Talibã governou o país, de 1996 a 2001, mulheres não podiam trabalhar fora de casa ou estudar.

Na segunda (30), o secretário de Estado, Antony Blinken, fez um pronunciamento breve e disse que os EUA suspenderam temporariamente sua representação diplomática no Afeganistão, mas que seguiriam conversando com os talibãs. Outra questão é o terrorismo, a razão inicial para a invasão, em 2001. O Talibã foi derrubado por abrigar pessoas ligadas aos ataques de 11 de Setembro, e teme-se que o novo regime possa abrir espaço para novos grupos que planejam atentados no exterior.

O ataque da semana passada foi reivindicado pelo Estado Islâmico Khorasan, braço afegão do EI e rival do Talibã. Uma parceria dos EUA com o grupo fundamentalista que hoje controla o Afeganistão para combater o terrorismo seria uma reviravolta difícil de explicar aos americanos que lutaram na guerra.

Internamente, Biden tem outras questões a tratar. O número de casos de Covid continua aumentando, e a média de mortes diárias voltou a superar a casa de mil, número que não era visto desde março -graças à disseminação da variante delta. Os estragos gerados pelo furacão Ida também têm ganhado espaço no noticiário, e a Suprema Corte, de maioria conservadora, tem dado decisões que desagradam ao governo.

Em setembro, outros temas poderão desviar o foco da crise no Afeganistão, como a aprovação de um plano de investimentos em infraestrutura no Congresso. Outro pacote, de programas sociais que deve custar US$ 3,5 trilhões, também está em análise. E, no dia 20, começará a aplicação da terceira dose da vacina da Covid para a população que se imunizou oito meses atrás.

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