Quem estuprou? Forçar Klara Castanho a falar quem é seu estuprador é mais uma agressão

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Imagem: Reprodução/Instagram

“Cadê o estuprador. Quem é? Queremos saber!” Esses questionamentos têm virado uma espécie de tendência nas redes sociais entre muitos que comentam o caso da atriz Klara Castanho, que contou no sábado (25), depois de ser exposta, que foi vítima de um estupro, engravidou e encaminhou a criança para a adoção.

O coro de “cadê o estuprador” está se tornando forte. E, mais uma vez, Klara, a vítima, é cobrada, indagada. Como se ela não tivesse passado por desgraça e agressão o suficiente nos últimos dias. “Por que ela não disse quem é?”, perguntam alguns, como se desconfiando da vítima.

Essa pergunta é feita por muitos homens, que claramente nunca tiveram uma amiga vítima de estupro ou violência doméstica, mas também por mulheres. Vamos lá. Nenhuma mulher vítima de estupro tem obrigação de falar quem foi seu agressor, como foi o crime e dar detalhes do maior trauma da sua vida.
Tenho amigas feministas que foram estupradas e não fizeram boletim de ocorrência justamente por conhecerem o sistema e saber como mulheres são tratadas quando denunciam um crime desses nas delegacias do Brasil.

E, bem, todas sabemos, infelizmente, como funcionam as audiências quando uma mulher denuncia alguém. Ela pode ser culpabilizada por “postar fotos sexies na internet”, como se ela tivesse “provocado” um estupro. Sim, estou falando de Mariana Ferrer, que até hoje não viu justiça e foi abusada por um homem e pelo sistema jurídico brasileiro.

Não sei e não quero saber em que condições a Klara Castanho foi estuprada. Não tenho essa curiosidade sádica. Quero, como todo mundo, que todos os estupradores paguem pelos seus crimes. Mas Klara não tem obrigação de revelar nada. Será que acham que ela não foi exposta o suficiente?
Uma das pessoas a gritar “onde está o estuprador”, com ares de justiceira, é a youtuber Antonia Fontenelle, a mesma que expôs Klara em uma live, onde disse que a atriz “dizia ser vítima de estupro” e “teria chorado no telefone com o jornalista Leo Dias”. “Comigo não vai adiantar chorar”, disse, ameaçando e acusando Klara de “abandono de incapaz”, uma acusação falsa.

Depois de uma reportagem no “Fantástico” contar como Klara tinha sido exposta por Antonia, Leo Dias e Matheus Baldi, Fontenelle escreveu em seu perfil do Instagram: “Quanta covardia para comigo essa matéria do Fantástico. O vilão dessa história não sou eu. A vítima relata que foi estuprada, que tal usar o espaço para capturar o verdadeiro vilão?”

Sabe por que o estuprador não foi revelado? Porque essa história pertence à Klara e a mais ninguém. Só faltava quem não preservou a privacidade da atriz diante desse crime horrível agora cobrar que ela se exponha ainda mais.
“Ah, mas o estuprador é quem deveria ser exposto”, dizem. Por um lado isso é verdade total. Klara não podia ter sido exposta de jeito nenhum. Agora, ela não tem obrigação nenhuma de falar quem a estuprou. E talvez ela nem saiba quem foi.

O que ela não pode é ser cobrada menos de uma semana após ser exposta. Ela vai falar se quiser, quando quiser. Ou não. Respeitem.

Gostaria de acreditar que todos que perguntam “cadê o estuprador” estão mesmo preocupados com a proteção das mulheres. Mas desconfio que o que muitos deles querem é ver mais sangue, mais detalhes da história da Klara sendo expostos.

Não se atrevam a fazer outra exposição. Klara não merece isso. E não pode ser cobrada por nada. Ela é a vítima.
Nina Lemos
Colunista de Universa

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