Expansão de redes atacadistas afeta pequenos mercados

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Foto: Romildo de Jesus

Por Lily Menezes

Ir ao supermercado tem sido uma tarefa cada vez mais frequente para os baianos, especialmente durante a pandemia, quando o consumo de produtos de limpeza se tornou essencial para manter a higiene em dia. Porém, igualmente notável é a expansão das grandes redes atacadistas, que vão mudando a paisagem das cidades, sobretudo nos bairros populares, confirmando a alta de 5,32% nas vendas do setor neste primeiro semestre, de acordo com pesquisa elaborada pelo Departamento de Economia da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Trazendo preços bastante competitivos e comodidade, cada grande estrutura que vai sendo montada gera expectativa na população, que já consegue saber qual rede abrirá uma nova unidade apenas pelas cores da marca da empresa, e preocupação em quem já tem uma loja de porte menor no entorno, pois entrará num combate difícil pela preferência dos clientes. Um levantamento do portal Bahia Econômica revelou que pelo menos cinco grandes grupos de supermercados que servem à Bahia têm raízes na própria terra e garantem cifras milionárias em seu processo de expansão.

Competição

O mais notável deles é o Atakarejo, que começou suas atividades em 1994 com apenas uma unidade no bairro de Brotas e hoje já dispõe de 23 lojas, sem contar as que ainda não foram inauguradas, movimentando cerca de R$ 2 bilhões e com um quadro de mais de 4 mil funcionários. Com a adoção do sistema de atacado pela rede comandada por Teobaldo Costa, que reduz ainda mais o preço das mercadorias, a situação complica para quem tem um mercadinho de bairro. “Todo dia tem cliente que entra aqui e fala que viu tal coisa mais barata no mercado grande, e acaba indo comprar lá”, comentou Roberto da Paixão, dono de uma mercearia na Boa Viagem. Embora o fluxo de clientes não tenha reduzido com a pandemia, ele reconhece que não tem sido fácil. “A gente tem que pagar funcionário, despesas com o espaço, fornecedores. Os gastos aumentaram muito… Fizemos o possível para não repassar os aumentos para o cliente”, lamentou, enquanto recebia um carro com legumes e verduras. Com as medidas de distanciamento social, ele intensificou o serviço de entrega em domicílio nos bairros vizinhos, tentando oferecer mais um atrativo para fidelizar o público.

Crescimento

Além das redes conterrâneas, a competição no setor supermercadista na Bahia se acirrou ainda mais com a expansão de atacadistas nacionais, como o Atacadão, pertencente ao Grupo Carrefour, o Maxxi, do Grupo BIG e o Assaí, de propriedade do Grupo Pão de Açúcar (GPA). Se anteriormente era até preciso ter um ‘passaporte’ para entrar nas lojas de atacado, como acontecia no antigo Makro, hoje qualquer um pode entrar e levar só os produtos que desejar. Nunca se comprou tanto em atacarejos como agora: uma pesquisa conduzida pelo instituto Nielsen no fim de 2020 mostrou que mais de 60% das famílias brasileiras foi a um estabelecimento do tipo pelo menos uma vez para abastecer a casa; o formato venceu os tradicionais supermercados, impulsionado pela expectativa do cliente de encontrar preços mais em conta do que na mercearia do bairro, e pela variedade de itens disponíveis para pessoas físicas e jurídicas: o Atacadão, por exemplo, diz ter 10 mil produtos em seu catálogo. “A gente já viu a força do atacarejo em crises anteriores, e em 2020 não foi diferente. Em situações de crise, as pessoas buscam estratégias para manter seu poder de compra”, analisou o coordenador de atendimento ao varejo da Nielsen Bruno Achkar. Outro trunfo utilizado pelos atacarejos é o investimento em marcas próprias, que tornam os preços ainda mais atrativos.

Soluções

Mas, mesmo com as vantagens dos estabelecimentos de maior porte, o fim daquele mercadinho perto de casa não está decretado. Uma das principais vantagens é exatamente a proximidade, que permite ao cliente ter o que quer sem que precise pegar as grandes filas vistas nos atacarejos para pegar um item específico. “Dificilmente você vê alguém fazendo o mercado do mês aqui. Tem quem faça, mas é mais por conta da comodidade mesmo, a pessoa pode vir de carro ou pedir para alguém levar no carrinho de mão”, diz Paula Oliveira, que mantém um pequeno hortifruti no Uruguai. “Comida é uma coisa que as pessoas sempre estão precisando, às vezes ela até foi no mercado grande e se esqueceu de trazer alface, ou uma penca de banana na hora da pressa. A gente vai se adaptando. Tem espaço para todo mundo”.

Para o presidente da Abras João Galassi, o cenário atual é desafiador para toda a cadeia de abastecimento, e exige de cada gestor de mercado, do pequeno ao gigante, a capacidade de ajustar seus negócios para manter a clientela ativa e fidelizada. “Estamos nos organizando para reposicionar e requalificar a nossa atividade supermercadista, estimulados pelo novo contexto competitivo, pautado pela transformação digital e pelos novos hábitos de consumo dos brasileiros, influenciada pela crise sanitária que a covid-19 nos impôs. Neste atual contexto, não dá mais para cada setor caminhar por si só, e olhar apenas para suas próprias necessidades”.

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