Um novo método para o diagnóstico precoce da hanseníase, utilizando um exame de sangue aliado a um questionário clínico e inteligência artificial, está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Essa estratégia, testada em amostras coletadas durante um inquérito populacional de COVID-19, oferece a possibilidade de identificar a doença em estágios iniciais, antes que os sintomas se tornem evidentes e os exames tradicionais falhem.
Inovação no Diagnóstico da Hanseníase
O estudo, realizado por especialistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), visa a superação das dificuldades atuais no diagnóstico da hanseníase, uma condição que ainda enfrenta desafios em sua detecção precoce. Conforme explica o biomédico Filipe Lima, muitos profissionais de saúde carecem de treinamento adequado para reconhecer as formas iniciais da doença. Além disso, os tratamentos têm permanecido os mesmos por mais de 40 anos, contribuindo para falhas terapêuticas e resistência bacteriana.
Os pesquisadores buscaram identificar novos biomarcadores e protocolos de diagnóstico. Utilizando amostras de sangue coletadas durante um inquérito sorológico, o projeto teve como objetivo detectar pessoas expostas ao bacilo da hanseníase.
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Processo de Triagem e Diagnóstico
A pesquisa combinou um questionário clínico, conhecido como QSH, que inclui 14 perguntas sobre sinais e sintomas neurológicos, com um sistema de inteligência artificial chamado MaLeSQs. A segunda ferramenta foi um exame de sangue focado na detecção de anticorpos contra uma proteína-chave do Mycobacterium leprae, chamada Mce1A, que é mais sensível em comparação ao método tradicional baseado na molécula PGL-I.
O teste anti-Mce1A analisa três classes diferentes de anticorpos (IgA, IgM e IgG), aumentando a sensibilidade na detecção de exposição ao bacilo e infecções ativas, enquanto o teste anti-PGL-I geralmente só é positivo em quadros mais graves da doença.
Resultados Promissores
Durante a pesquisa, aproximadamente 700 pessoas foram convidadas a participar do estudo, com 224 aceitando responder ao questionário e 195 tendo suas amostras de sangue analisadas. Dentre essas, 12 novos casos de hanseníase foram diagnosticados, o que representa cerca de um terço dos indivíduos avaliados. O anticorpo IgM contra Mce1A se destacou, identificando dois terços dos novos casos confirmados.
Quando combinados, o exame laboratorial e a inteligência artificial atingiram 100% de sensibilidade, sinalizando todos os casos suspeitos confirmados durante as avaliações clínicas presenciais.
Hanseníase como Problema de Saúde Pública
A hanseníase é uma doença infecciosa que principalmente afeta a pele e os nervos periféricos, provocando manchas na pele e perda de sensibilidade. O Brasil é o segundo país com o maior número de casos no mundo, atrás apenas da Índia, e representa 90% das notificações nas Américas. Os sintomas mais comuns incluem formigamento, câimbras e áreas de pele com sensibilidade reduzida.
Esse novo método de diagnóstico pode ser incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e à atenção básica, fortalecendo a triagem e o tratamento da hanseníase. O próximo passo envolve validações em larga escala e o desenvolvimento de testes ainda mais sensíveis.
Para ler o artigo completo sobre a pesquisa, acesse: link.springer.com/article/10.1186/s12879-025-12483-0.
Informações da Agência FAPESP
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