Das 1.116 descrições de novas espécies de mamíferos realizadas de 1990 a 2025, 999 (89,51%) foram de animais de países tropicais, que possuem a maior biodiversidade do planeta. Embora o acesso a ferramentas avançadas e a capacidade técnica de cientistas tenha aumentado nas últimas três décadas, as descrições de mamíferos em regiões tropicais ainda são menos robustas do que aquelas realizadas em países desenvolvidos, que contribuíram com apenas 117 novas espécies no mesmo período.
Esse estudo foi publicado no Journal of Systematics and Evolution e revela um panorama importante sobre a taxa de descoberta de novas espécies.
Taxonomia e Conservação
Com o tempo, a taxonomia de mamíferos se torna mais robusta, utilizando mais técnicas e analisando um maior número de espécimes. Isso significa que as descrições estão se tornando menos contestadas, um aspecto positivo para estudos de conservação que dependem de dados confiáveis. Segundo Matheus Moroti, um dos principais autores do estudo, “os dados confiáveis são cruciais para políticas de conservação eficazes”.
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Apesar do número menor de novas espécies descritas, pesquisas em países da Europa e Estados Unidos utilizam técnicas descritivas avançadas, como ferramentas genéticas e análise de anatomia interna por tomografia computadorizada. Jhonny Guedes, também pesquisador no estudo, destaca que a alta tecnologia geralmente está disponível nesses países mais ricos, enquanto em países de menor renda seu uso é muitas vezes inviável devido a altos custos.
Influências na Taxonomia
O projeto "Megadados & conservação da biodiversidade" analisa como a robustez das diagnósticas pode ser afetada por fatores biológicos, geográficos e socioeconômicos. Por exemplo, 41% dos mamíferos descritos no período são roedores, enquanto 26% são morcegos, grupos que, devido à sua alta diversidade, precisam ser descritos a partir de um maior número de espécimes.
Internacionalização na Pesquisa
Os pesquisadores notaram uma queda no número médio de países por autor, o que sugere uma crescente autossuficiência na descrição de espécies, especialmente na América do Sul. Isso é no contexto do barateamento de ferramentas moleculares que facilitam a pesquisa local. No entanto, colaborações internacionais ainda são mais comuns para descrições que se baseiam apenas em caracteres moleculares.
Importância da Participação dos Coletor
Uma tendência crescente é a participação do coletor na descrição da nova espécie, o que pode acelerar o processo de publicação. Estudos anteriores mostram que a ausência dos coletores pode levar a longos atrasos na classificação formal das espécies, uma questão crítica para a conservação.
Conclusão
A evolução em direção à chamada "taxonomia integrativa" está fomentando uma maior estabilidade nas classificações, o que é fundamental para a conservação de espécies ameaçadas. Moroti finaliza afirmando que o reconhecimento de mais espécies é vital, pois a conservação inadequada pode resultar na proteção de uma espécie que na verdade compreende várias distintas, algumas das quais podem estar ameaçadas.
O artigo completo, "Historical shifts, geographic biases, and biological constraints shape mammal species discovery", pode ser acessado aqui.
Informações da Agência FAPESP
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