Pesquisa Identifica Alvos Genéticos Promissores no Combate à Esquistossomose

Por Redação
4 Min

Um estudo recente do Instituto Butantan e da Universidade de São Paulo (USP) marcou um avanço significativo na compreensão genética do Schistosoma mansoni, o parasita responsável pela esquistossomose. Publicado na revista Non-Coding RNA, a pesquisa utilizou técnicas de bioinformática para identificar milhares de novos RNAs longos não codificantes (lncRNAs) no genoma deste parasita. Os achados expandem o entendimento sobre sua biologia e oferecem novos alvos terapêuticos para aprimorar os tratamentos atuais, que enfrentam limitações.

Esquistossomose: Causas e Transmissão

Popularmente conhecida como barriga d’água, a esquistossomose é uma infecção causada por vermes do gênero Schistosoma. A transmissão ocorre em água doce contaminada, onde larvas denominadas cercárias, vindas de caramujos, penetram na pele durante o contato. De acordo com o professor Sergio Verjovski-Almeida, coordenador do estudo, não é necessário ter feridas para a entrada do parasita, pois ele secreta enzimas que degradam a pele.

Após a penetração, as cercárias tornam-se esquistossômulos e migram para a corrente sanguínea, onde amadurecem em machos e fêmeas. O macho abriga a fêmea em uma estrutura chamada canal ginecóforo, formando um par que vive em simbiose. Juntos, migram para as veias mesentéricas do intestino, onde a fêmea começa a produção de ovos. Enquanto parte é eliminada pelo corpo, outra parte retida causa inflamações e lesões, especialmente no fígado.

Tratamento e Desafios

Atualmente, o tratamento da esquistossomose depende do praziquantel, o único medicamento recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Embora eficaz em estágios avançados da infecção, ele não atua nas formas iniciais do parasita e não previne reinfecções. Além disso, a exposição contínua ao praziquantel pode favorecer a resistência do parasita ao tratamento. “É fundamental identificar novos alvos terapêuticos que atuem logo após a infecção, quem sabe até desenvolver uma vacina”, afirma Verjovski-Almeida.

Exploração dos RNAs Longos Não Codificantes

Os pesquisadores concentraram-se nos lncRNAs, que, apesar de não codificarem proteínas, desempenham papel regulatório crucial. Ao analisar quase 1.800 conjuntos de dados de transcriptoma, integrados à versão mais completa do genoma de S. mansoni, a equipe utilizou uma abordagem de montagem hierárquica. Essa estratégia facilitou a detecção de transcritos de baixa expressão, como os lncRNAs, que frequentemente passam despercebidos nas análises tradicionais.

Mais de 10 mil novos genes de lncRNA foram identificados, totalizando cerca de 17 mil novos transcritos. Desses, aproximadamente 42% são expressos apenas em uma fase do ciclo de vida do parasita, indicando funções especializadas.

Dimorfismo Sexual e Implicações Terapeutas

Um dos resultados mais significativos do estudo foi a relação entre lncRNAs e o dimorfismo sexual do parasita. Foram identificados quase 2 mil genes diferencialmente expressos entre machos e fêmeas, incluindo 635 lncRNAs. Nos machos, esses RNAs estão associados ao desenvolvimento muscular, imprescindível para o acasalamento, enquanto nas fêmeas, regulam processos como a replicação de DNA e metabolismo, essenciais para a intensa produção de ovos. Interferir neste processo pode ser uma estratégia promissora para controle da doença, já que a fêmea do parasita produz entre 300 a 500 ovos por dia.

Próximos Passos da Pesquisa

Os pesquisadores planejam validar experimentalmente esses lncRNAs e explorar seu potencial terapêutico. O próximo passo envolve o silenciamento desses genes in vitro, seguido de testes in vivo. Em paralelo, a equipe continua a aprimorar as análises computacionais para identificar os candidatos mais promissores, buscando novos alvos terapêuticos com a possibilidade de controlar a proliferação do parasita.

O artigo completo intitulado "Comprehensive Schistosoma mansoni hierarchical transcriptome assembly points to novel lncRNAs associated with sexual dimorphism" pode ser acessado em MDPI.

Informações da Agência FAPESP

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