Estocagem de Carbono em Campos Úmidos do Cerrado Brasileiro
Os campos úmidos e veredas do Cerrado brasileiro têm a capacidade de armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, equivalente a aproximadamente seis vezes o estoque de biomassa de florestas típicas da Amazônia. Estudos indicam que esse carbono está presente nos solos há, em média, 11 mil anos, com alguns casos datando até 20 mil anos. Esse acúmulo é lento e favorecido pela baixa oxigenação dos solos saturados de água.
Recentemente, um estudo publicado na revista New Phytologist revelou que essas áreas úmidas, ainda pouco exploradas, podem cobrir 167 mil quilômetros quadrados (km²) do Cerrado, representando pelo menos seis vezes mais do que se acreditava anteriormente, correspondendo a cerca de 8% do bioma e 2% do território brasileiro.
O Cerrado: Berço de Águas e Biodiversidade
Considerado o segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como “berço de águas” por seu papel crucial no abastecimento de grandes bacias hidrográficas. Além de contribuir significativamente para as regiões Sul e Sudeste do Brasil, abriga os olhos d’água, que são afloramentos naturais do lençol freático, classificados como Áreas de Preservação Permanente (APPs) pela legislação brasileira.
As veredas, descritas na icônica obra Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, são um tipo de turfeira e desempenham papéis ecológicos estratégicos, especialmente como fontes para rios e bacias hidrográficas. No entanto, esses ecossistemas enfrentam grandes riscos devido à expansão agrícola, desmatamento e mudanças hídricas. Mesmo pequenas alterações no entorno podem reduzir o nível do lençol freático e transformar esses solos em fontes de emissão de carbono.
Desafios e Importância da Conservação
Pesquisadores alertam que as alterações no Cerrado podem ter consequências severas para a segurança hídrica e a biodiversidade. Mesmo com uma redução nos índices de desmatamento, as taxas permanecem alarmantes, com um total de 1.905 km² de áreas sob alerta de desmatamento desde agosto de 2025 até janeiro recente. Levantamentos como o do MapBiomas já indicaram que 47% do Cerrado é ocupado por áreas de uso humano, destacando a pressão sobre esse ecossistema.
Pesquisa em Áreas Úmidas do Cerrado
Este estudo foi inovador na abordagem de amostras de solo profundo, com profundidades de até quatro metros, coletadas em diferentes pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. O uso de ferramentas como o LI-COR Trace Gas Analyzer permitiu medições precisas das emissões de gás carbônico e metano, cuja liberação é especialmente intensa durante a estação seca.
Os resultados indicam uma estabilidade baixa do carbono nessas áreas em comparação com outras turfeiras tropicais. Aproximadamente 70% das emissões anuais de CO₂ e CH₄ ocorrem durante a estação seca, principalmente pela composição da vegetação, que favorece a decomposição.
Conclusão e Ações Futuras
A necessidade de proteger e mapear as áreas úmidas do Cerrado é urgente, ao passo que pesquisadores continuam a investigar a dinâmica de carbono e o funcionamento dos ecossistemas para formular estratégias de restauração e conservação. A preservação dessas turfeiras é vital, pois sua destruição pode levar milênios para ser revertida, impactando também outros serviços ecossistêmicos essenciais.
O artigo completo "Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil’s Cerrado: carbon storage, dynamics, and stability" pode ser acessado aqui.
Informações da Agência FAPESP
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