Descoberta de Proteína Relacionada ao Avanço do Câncer de Pâncreas Através dos Nervos

Por Redação
5 Min

Estudo Revela Papel da Periostina e Células Estreladas na Invasão do Câncer de Pâncreas

Um novo estudo brasileiro publicado na revista Molecular and Cellular Endocrinology desvendou como a proteína periostina e as células pancreáticas estreladas contribuem para a infiltração de nervos pelo câncer de pâncreas, aumentando o risco de metástases. A pesquisa revelou que o tumor reprograma o tecido saudável ao seu redor, adquirindo uma capacidade aumentada de invasão, o que se relaciona à agressividade da doença e à dificuldade de tratamento. Essas descobertas abrem novas possibilidades para terapias mais precisas e personalizadas.

Câncer de Pâncreas: Agressividade e Mortalidade

O câncer de pâncreas mais comum é o adenocarcinoma, que representa 90% dos casos diagnosticados. Considerado altamente agressivo e letal, ele não é comum, mas sua taxa de mortalidade se aproxima da taxa de incidência. Globalmente, cerca de 510 mil novos casos são diagnosticados anualmente, resultando em praticamente o mesmo número de mortes.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima cerca de 11 mil novos casos e 13 mil mortes por ano. Segundo o oncologista Pedro Luiz Serrano Uson Junior, apenas 10% dos pacientes têm chance de sobrevida a longo prazo, como cinco anos após o diagnóstico.

A Invasão Perineural e seus Efeitos

A invasão perineural é um processo em que células cancerosas invadem e avançam ao longo dos nervos, causando dores intensas e facilitando a disseminação do tumor. "A invasão perineural é um marco de agressividade do câncer", afirma Uson.

O estudo foi conduzido no Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão da FAPESP. O primeiro autor, Carlos Alberto de Carvalho Fraga, e o pesquisador principal Helder Nakaya exploraram os mecanismos celulares que sustentam essa invasão, utilizando tecnologias avançadas para analisar a atividade de milhares de genes em cada célula.

O Papel da Periostina

Ao estudarem 24 amostras de câncer de pâncreas, os pesquisadores descobriram que o estroma, o tecido que suporta o tumor, desempenha um papel ativo em sua progressão. As células pancreáticas estreladas, que expressam altos níveis de periostina, são fundamentais nesse processo. A periostina remodela a matriz extracelular, permitindo que as células tumorais avancem em direção aos nervos.

Esse ambiente alterado gera uma reação desmoplásica, que intensifica a fibrose ao redor do tumor, dificultando a eficácia de quimioterápicos e imunoterapias. Segundo Uson, a infiltração das células tumorais é crucial para o mau prognóstico dos pacientes: mais da metade dos casos já apresenta invasão perineural em estágios iniciais, geralmente identificada apenas durante a cirurgia.

Oportunidades Terapêuticas

A periostina emerge como um alvo terapêutico promissor. Bloquear sua ação ou eliminar as células estreladas que a produzem pode ajudar a reduzir a invasão perineural e limitar a capacidade metastática do tumor. Nadaya destaca que ensaios clínicos com anticorpos contra a periostina estão em andamento para outros tumores, sugerindo que essa via pode ser relevante também no câncer de pâncreas.

Avanços em Medicina de Precisão

Esse estudo enfatiza a importância da medicina de precisão no tratamento do câncer de pâncreas. O desenvolvimento de anticorpos ou medicamentos que possam bloquear as células estreladas e a capacidade invasiva do tumor poderá revolucionar o tratamento. Uson ressalta que não existem atualmente terapias direcionadas à invasão perineural, mas uma abordagem eficaz poderia beneficiar outros tipos de câncer, como os de intestino e mama.

Conclusão

O estudo não apenas identifica novos alvos terapêuticos, mas também exemplifica o potencial das análises complexas provenientes de bancos de dados públicos. O próximo passo é traduzir esse conhecimento em estratégias e medicamentos que possam atuar preditivamente, antes que a invasão ocorra. "A medicina de precisão está avançando. No futuro, trataremos pacientes com base em alterações genômicas e moleculares, e não apenas pelo tipo de tumor", conclui Uson.

O artigo completo, Periostin-positive stellate cells associated with perineural invasion in pancreatic adenocarcinoma, está disponível em: ScienceDirect.

Informações da Agência FAPESP

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