Reformulação dos Sistemas de Saúde na Amazônia: Especialistas Abordam as Mudanças Climáticas

Por Redação
4 Min

Uma equipe multidisciplinar de pesquisadores brasileiros defende, em um artigo publicado na revista British Medical Journal, que os sistemas de saúde na Amazônia precisam ser reestruturados em resposta às mudanças climáticas, eventos extremos e insegurança alimentar. O estudo sugere que essa reformulação leve em conta os saberes tradicionais e as necessidades específicas das comunidades locais.

Com a realização da COP30 na Amazônia e a elaboração de um plano nacional de saúde e clima pelo Ministério da Saúde, o artigo explora novas abordagens para o Sistema Único de Saúde (SUS) na região. Propõe-se a criação de indicadores adaptados às especificidades amazônicas e a valorização de práticas de cuidado que considerem o território.

A professora Gabriela Di Giulio, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e coautora do artigo, destaca a importância do setor da saúde no debate sobre a emergência climática. Eventos extremos, como ondas de calor e enchentes, impactam a vida de muitas pessoas e exigem que o setor de saúde atue de forma proativa.

Os pesquisadores sugerem uma abordagem que combine saberes tradicionais, científicos e políticos. Isso inclui a implementação de vigilância em saúde baseada em comunidades, fundamentada em epistemologias indígenas. Di Giulio enfatiza a importância de valorizar conhecimentos tradicionais sobre alimentação e dietas, visando combater a disseminação de alimentos ultraprocessados.

Além disso, o artigo propõe um modelo de adaptação que reconheça os rios e florestas como elementos essenciais para os processos de saúde, e os povos tradicionais como guardiões de conhecimentos cruciais para a resiliência climática. O conceito de "territórios fluidos" é destacado como fundamental na atuação da Fiocruz Amazônia, pois integra realidades locacionais às questões de saúde.

Leandro Giatti, também professor da FSP-USP e coautor, explica que a imprevisibilidade das condições climáticas pode dificultar o acesso aos serviços de saúde, como evidenciado pelas secas que isolaram comunidades em 2023 e 2024. Ele alerta para a necessidade de adaptação do sistema de saúde a essas novas realidades.

O artigo ainda discute os riscos associados à continuidade do modelo de desenvolvimento atual e ao descumprimento de acordos climáticos, que ameaçam a sociobiodiversidade essencial para atenuar o sofrimento social e os efeitos das mudanças climáticas.

Os povos indígenas possuem uma visão holística da saúde, que abrange aspectos espirituais, sociais e ambientais, compreendendo doenças como malária e COVID-19 como reflexos de desequilíbrios provocados por ações humanas.

Os autores criticam políticas públicas que ignoraram os direitos dos povos indígenas, resultando em perda de biodiversidade e impactos profundos na saúde das populações locais.

Dossiê sobre Mudanças Climáticas e Saúde

Além do artigo sobre sistemas de saúde, o grupo de pesquisadores publicou outros três artigos formando um dossiê sobre mudanças climáticas e saúde. Um dos estudos analisa a atuação de lideranças mulheres indígenas durante a pandemia de COVID-19 no rio Negro e suas implicações para emergências climáticas. Outro artigo debate novas formas de governança socioambiental na Amazônia, enquanto o quarto aborda as contradições do Brasil ao sediar a COP enquanto enfrenta pressão por exploração ambiental.

Di Giulio afirma que o dossiê tem como objetivo trazer uma perspectiva decolonial, priorizando temas que emergem das especificidades do Sul global.

O artigo completo, "Health systems in the Amazon need to be reimagined for a more sustainable future", pode ser lido em: bmj.com/content/391/bmj.r1925.

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Informações da Agência FAPESP

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