Potencial do Brasil em Bioenergia a partir de Pastagens Degradadas
O Brasil possui cerca de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas, uma área equivalente a quatro vezes o território do Estado de São Paulo. Se 30% dessa área – cerca de 36 milhões de hectares – fosse utilizada para expandir o cultivo de cana-de-açúcar, milho e soja para bioenergia, seria possível gerar 6,8 exajoules (EJ) de energia por ano. Esse valor corresponde à totalidade da energia renovável produzida atualmente no mundo. O impacto ambiental dessa iniciativa seria neutro ou mesmo negativo, dependendo da região, uma vez que o cultivo de culturas energéticas em terras degradadas ajudaria na fixação de carbono no solo.
Esses dados são oriundos de um estudo realizado por pesquisadores do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), vinculado ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) em Campinas (SP).
O Papel da Bioeconomia
Os resultados preliminares do estudo foram apresentados em uma mesa-redonda sobre a bioeconomia como motor da transformação ecológica da economia brasileira, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30). O diretor do LNBR, Mário Murakami, ressaltou que a conversão de terras degradadas em lavouras energéticas poderia não apenas contribuir para a transição energética do Brasil, mas também globalmente, alinhando-se à meta de quadruplicar a produção de biocombustíveis até 2035.
Os pesquisadores utilizaram mapeamento de satélite de alta resolução para estimar a área total de terras degradadas, levando em consideração critérios que excluem áreas de preservação ambiental. Isso garante que os cultivos não impactem negativamente o sistema hídrico ou a vegetação nativa. Assim, apenas 36 milhões de hectares foram considerados para a produção de bioenergia, enquanto os 64 milhões restantes poderiam ser destinados ao reflorestamento.
Logística e Cultivo Regional
A pesquisa também considerou a logística para o cultivo de culturas energéticas conforme a localização geográfica. Em diferentes regiões do Brasil, a escolha da cultura ideal é essencial: em algumas, o milho e a soja podem ser mais adequados, enquanto em outras, a cana-de-açúcar pode ser a melhor opção. Esse planejamento cuidadoso permite maximizar os benefícios de cada área.
Atualmente, a área dedicada ao cultivo de cana-de-açúcar no Brasil é de 9 milhões de hectares. A expansão para os 36 milhões de hectares disponíveis poderia triplicar a produção nacional de bioenergia. O Brasil, portanto, possui um potencial significativo para aumentar sua produção utilizando apenas uma fração das terras degradadas, enquanto mantém a maior parte de sua área para reflorestamento.
Vantagens Competitivas do Brasil
O Brasil apresenta várias vantagens comparativas em bioeconomia. Mais de 90% da energia elétrica gerada no país é renovável, o que o diferencia globalmente. Essa energia renovável pode ser usada para produzir hidrogênio sustentável, essencial para combustíveis alternativos, sem depender de combustíveis fósseis.
Além disso, o Brasil conta com uma vasto recurso de biomassa lignocelulósica, disponível na indústria, que não compete com a produção de alimentos. Atualmente, mais de 500 milhões de toneladas desse insumo são produzidas anualmente, oferecendo oportunidades para conversão em biocombustíveis, alimentação animal e cosméticos.
Desafios Tecnológicos
Apesar dessas vantagens, o Brasil enfrenta desafios em tecnologias para a conversão de biomassa. A maioria das tecnologias existentes é importada, o que limita a soberania tecnológica. O LNBR se compromete a compartilhar riscos com a indústria nacional e desenvolver tecnologias que garantam a competitividade do país.
Bioprospecção e Biodiversidade
Os pesquisadores do LNBR buscam inspirar-se na biodiversidade brasileira para superar barreiras tecnológicas. Através da bioprospecção, descobriram um novo filo bacteriano em amostras de solo com bagaço de cana-de-açúcar, que revolucionou o metabolismo da celulose. Essa descoberta, documentada em um artigo da revista Nature, destaca a importância da biodiversidade e da preservação das florestas.
A integração de tais tecnologias com plataformas de produção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) permitirá que cientistas colaborem na melhora dessas inovações.
Conclusão
O Brasil tem potencial significativo para se tornar um líder mundial em bioenergia, aproveitando terras degradadas e utilizando sua biodiversidade para inovar em tecnologias. Com um planejamento estratégico e investimentos em pesquisa, o país pode avançar na bioeconomia, contribuindo significativamente para a sustentabilidade global.
Informações da Agência FAPESP

