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Pesquisador Indígena Revitaliza Práticas Médicas Tradicionais de Sua Comunidade

4 Min

Resgate de Saberes Ancestrais: Estudo inédito sobre Plantas Medicinais Pataxó Hã-Hã-Hãi

Um estudo inovador realizado pelo etnobotânico Hemerson Dantas dos Santos Pataxó Hãhãhãi recuperou conhecimentos curativos ancestrais de seu povo indígena. Doutorando no Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (ICAQF-Unifesp), Pataxó Hãhãhãi é reconhecido como o primeiro pesquisador etnobotânico indígena do mundo.

Publicação de Pesquisa Etnobotânica

O artigo que relata essa pesquisa foi publicado no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine. Pataxó Hãhãhãi expressa: “Esse trabalho foi feito por nós e para nós, resgatando conhecimentos que se perdem e mostrando que podemos fazer ciência sem abrir mão de quem somos.”

O Contexto da Pesquisa

Este estudo visou atender às necessidades do povo Pataxó Hã-Hã-Hãi em face da perda progressiva de saberes ancestrais. O foco inicial incluía tratamentos para verminoses, diabetes e hipertensão, problemas de saúde exacerbados pela fragmentação da comunidade e pela deterioração das condições de vida.

No decorrer da pesquisa, foram catalogadas 175 plantas medicinais utilizadas pela comunidade, 43 delas especificamente para o tratamento das doenças e com 79% de concordância com a literatura científica atual.

Descobertas sobre Plantas Medicinais

Uma descoberta marcante foi que muitas das principais plantas medicinais são espécies exóticas, introduzidas após a Colonização. Exemplos incluem o mastruz (Dysphania ambrosioides) para verminoses, a moringa (Moringa oleifera) para diabetes e o capim-cidreira (Cymbopogon citratus) para hipertensão. Pataxó Hãhãhãi observou que a maior parte das plantas mencionadas pelos anciãos da comunidade desapareceu, evidenciando a perda ambiental e cultural significativa.

Contexto Histórico da Terra Indígena

A Terra Indígena Pataxó Hã-Hã-Hãi, no sul da Bahia, é uma área de 54.105 hectares, oficialmente reservada em 1926. Desde então, a comunidade enfrentou invasões e a perda de direitos territoriais, agravadas por conflitos com fazendeiros. Em 2012, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a posse tradicional da terra, mas os desafios persistem, refletindo uma história de luta e resistência.

Práticas de Cura e Cultura Indígena

O estudo envolveu 19 especialistas em práticas de cura, todos com vasto conhecimento sobre a flora medicinal local. Pataxó Hãhãhãi destaca a importância dos anciãos, como Dona Marta, curandeira e parteira respeitada na comunidade. Apesar das mudanças culturais e da introdução de novas crenças, algumas práticas tradicionais ainda persistem.

Etnobotânica Participativa

A pesquisa utilizou a abordagem de “etnobotânica participativa”, capacitando a comunidade a ser protagonista na documentação e utilização de seus conhecimentos. O método desafia a lógica colonial na produção de conhecimento científico, garantindo que os indígenas tenham autonomia sobre seus saberes.

Resultados e Implicações

O estudo incluiu mais de 240 dias de trabalho em campo, envolvendo visitas às dez aldeias da comunidade. O trabalho resultou em um livro, material audiovisual e a criação de canteiros de plantas medicinais nas aldeias. Também está previsto um livreto com receitas para garantir segurança no uso das plantas medicinais, voltado a jovens e profissionais de saúde indígena.

Este estudo foi apoiado pela FAPESP, destacando a importância da preservação dos conhecimentos tradicionais e a reafirmação do papel da etnobotânica na saúde indígena. Para mais detalhes, acesse o artigo completo aqui.

Informações da Agência FAPESP

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